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Fotografia de viagem

Na primeira aula da série, Valdemir Cunha dá dicas para quem planeja atuar no segmento e fala dos desafios para a realização profissional

Érico Elias (texto) e Valdemir Cunha (consultoria e fotos)

O fotógrafo Valdemir Cunha

O fotógrafo Valdemir Cunha

iajar para lugares paradisíacos com todas as despesas pagas e ainda ganhar por isso. O que parece o melhor dos mundos é, na realidade, uma das especialidades mais difíceis de dar retorno financeiro no campo da fotografia. O diagnóstico foi dado por Valdemir Cunha, um dos mais talentosos e bem sucedidos fotógrafos de viagem no Brasil.

Valdemir se estabeleceu nesse restrito mercado pelo fato de ter ultrapassado as funções clássicas de um fotógrafo. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, começou a trabalhar em redação logo cedo, como estagiário de texto. Assim que saiu da faculdade, tornou-se editor de uma revista especializada em cavalos, onde ficou entre 1990 e 1994. Foi nessa época que começou a fotografar.

Em 1992, ele esteve no haras de Jayme Monjardim e realizou algumas fotos que impressionaram o diretor, conhecido pela novela Pantanal. Foi nessa ocasião que surgiu o convite a Valdemir para passar uma temporada na fazenda de Jayme no Pantanal. A viagem, de 40 dias, marcou o jovem jornalista, fazendo-o decidir-se pela fotografia.

Ao retornar do Pantanal, Valdemir Cunha começou a fazer matérias como freelancer para a recém fundada revista Caminhos da Terra. Conhecida como Terra, a publicação marcou época e teve uma trajetória muito peculiar no mercado editorial brasileiro. A relação de Valdemir Cunha com a revista se intensificou e, em 1996, foi contratado para trabalhar fixo na redação.

No período de 12 anos em que ficou na Terra, o fotógrafo experimentou uma rápida ascensão, chegando a editor-executivo em 2001. A revista parou de circular em 2008, por problemas de gestão na editora que a publicava, deixando órfã uma geração de leitores que descobriu destinos turísticos exóticos e santuários naturais brasileiros nas páginas de suas edições mensais.

“O que buscamos com a Terra foi, na medida do possível, dar espaço e condições para o trabalho de bons fotógrafos brasileiros. A publicação sempre se destacou pela qualidade imagética, que também era seguida pelo pessoal do texto. Como editor da revista, tive o prazer de poder publicar ensaios fotográficos e não apenas conjuntos de imagens que se limitam a ilustrar o texto”, destaca Valdemir.

Para ele, a fotografia de viagem não deve mostrar um lugar, mas a forma como um fotógrafo viu esse lugar. Nessa concepção, abre-se espaço para a criação autoral e para a revelação de histórias descobertas pelo fotógrafo. Em vez de uma descrição genérica, uma boa matéria de viagem deve expressar uma experiência muito particular do destino em questão, sem nunca perder de vista a necessidade de informar.

“A maioria das pessoas acha que viajar é somente ir lá e voltar com belas fotos, mas viajar é também contar uma história. Nossa missão, como fotógrafos documentaristas, é a de trazer ao grande público relatos do Brasil, que está em plena transformação”, ressalta Valdemir.

Para dar conta desse objetivo, é preciso fazer um pouco de tudo: retrato, paisagem, arquitetura, interiores e gastronomia – na imensa maioria dos casos sem dispor de um assistente para ajudar nas fotos produzidas.

Como editor da Terra por muitos anos, ele detecta na revista a preocupação de fazer reportagens com um “acento brasileiro”. Diferentemente de sua grande inspiradora, a National Geographic, cuja versão local é em grande parte produzida com material vindo de fora, a Terra dava espaço à expressão de jornalistas e fotógrafos brasileiros, além de ter ajudado a revelar lugares do País ainda desconhecidos do grande público, como o Jalapão ( TO) e os Lençóis Maranhenses ( MA).

Apesar de ter familiaridade com o texto, Valdemir é um grande defensor da dupla de reportagem, algo cada vez mais raro de se encontrar na área. “Quem quer fazer texto e foto geralmente não faz bem nem uma coisa nem outra, ou então sacrifica uma das coisas para se dedicar mais à outra. Eu já estive do outro lado do balcão, como edi.tor, e sei que muitas vezes é difícil contratar dois profissionais para uma pauta, por questão de custos, mas a qualidade da informação que chega ao leitor não é a mesma”, opina.

Deserto do Atacama, no Chile: a inserção de um personagem dá maior impacto à imensidão da paisagem / Foto: Valdemir Cunha

Deserto do Atacama, no Chile: a inserção de um personagem dá maior impacto à imensidão da paisagem / Foto: Valdemir Cunha

Quando a revista Terra parou de circular, em 2008, Valdemir passou então a trabalhar em tempo integral na administração de sua própria editora, a Origem.

“Criei a editora em 2002, na época em que a Terra mudou da Abril para a Peixes e a proposta era publicar livros com material de arquivo da revista. A ideia acabou não vingando, mas mantive o selo e passei a me informar cada vez mais sobre o mercado de livros. Agora, minha intenção é que a editora possa continuar o trabalho iniciado com a Terra”, conta.

Além de manter-se no mercado como fotógrafo e principalmente como editor freelancer, Valdemir agora toca projetos pessoais bancados com patrocínios advindos de leis de incentivo fiscal. Ele tem pela frente um ambicioso projeto de documentação da paisagem brasileira, que deve resultar na publicação de sete livros nos próximos anos.

O primeiro deles, Brasil Natural, está em fase de finalização e, com patrocínio do Banco Fator, tem lançamento previsto para novembro de 2011. Trará grandes reportagens sobre sete importantes parques nacionais: Aparados da Serra (RS), Cataratas do Iguaçu (PR), Pantanal (MT e MS), Chapada Diamantina (BA), Fernando de Noronha (PE), Lençóis Maranhenses (MA) e Monte Roraima ( RO).

A proposta para os demais livros é seguir explorando outras belezas naturais brasileiras tendo sempre o número sete como referência. Os próximos volumes previstos são Brasil Litoral e Brasil Interior. A captação de recursos será feita com o desenrolar do projeto, para cada um dos livros em particular. Parte do material publicado virá dos arquivos de Valdemir, mas a maioria será feita em novas viagens.

A remuneração pelo trabalho de fotógrafo e editor, bem como as despesas de viagem e de publicação dos livros serão bancadas integralmente com o auxílio da lei: “a Lei Rouanet trouxe boas oportunidades para nós, pois a publicação de um livro é o sonho de muitos fotógrafos e se tornou viável apenas com o surgimento do incentivo. É também uma maneira de desenvolver projetos pessoais de forma independente”, explica.

Deserto nas proximidades de Petra, na Jordânia: fotógrafo usou as sombras dos dromedários para dar mais informação sobre o lugar / Foto: Valdemir Cunha

Deserto nas proximidades de Petra, na Jordânia: fotógrafo usou as sombras dos dromedários para dar mais informação sobre o lugar / Foto: Valdemir Cunha

Segundo ele, o mais difícil não é formatar nem aprovar o projeto, mas conseguir captar o dinheiro necessário para a execução. Para isso, é necessário, sobretudo, ter uma visão de empreendedor. “Para se manter no mercado é preciso ser mais que fotógrafo. Ao formatar e executar um projeto nós trabalhamos também como produtores culturais, o que exige noções de administração e planejamento. A responsabilidade é grande quando se faz uso de dinheiro público captado junto a grandes empresas para desenvolver um projeto pessoal”, explica o fotógrafo.

No caso do livro Brasil Natural e dos demais volumes previstos para a série, foi justamente a preocupação de fazer valer o dinheiro público empregado no projeto que o levou a inserir no orçamento uma versão integral da publicação para internet.

“Eu não faço fotografia para meus amigos fotógrafos verem. Faço com a proposta de informar o público mais amplo possível. Essa função paradidática, que já era assumida pela revista Terra, continua como princípio norteador da Editora Origem. Não é a toa que a revista foi muito usada em sala de aula. Ao disponibilizar conteúdo integral de um livro na internet, também posso chegar às bibliotecas e salas de aula de todo o País”, compara.

Valdemir não esconde sua admiração por Araquém Alcântara. Ele toma o fotógrafo como exemplo de empreendedor, por manter sua própria editora, pela qual vem conseguindo publicar livros anualmente, e por conseguir viabilizar seus projetos de viagem e documentação.

 “Eu tenho uma abordagem bem diferente da do Araquém, que é mais fotógrafo de natureza. Por isso não me considero concorrente direto. Mas, mesmo que fosse, não deixaria de admirá-lo. Ele tem uma noção de marketing e de inserção da fotografia documental em espaços mais amplos que poucos fotógrafos no Brasil têm”, analisa.

 

Aos que estão em princípio de carreira, Valdemir Cunha aconselha inserir as pautas feitas para o mercado editorial em projetos mais amplos, de longo prazo. Diante das limitações de um mercado editorial pequeno, a solução é diversificar as fontes de renda e os potenciais clientes.

Artista de rua em Havana, capital de Cuba: registro do personagem tendo como pano de fundo prédios antigos da cidade / Foto: Valdemir Cunha

Artista de rua em Havana, capital de Cuba: registro do personagem tendo como pano de fundo prédios antigos da cidade / Foto: Valdemir Cunha

“É inviável viver apenas como freelancer para revistas de viagem. Se cada viagem dura de cinco a dez dias, dá para fazer, no máximo, duas por mês. Ganhando cerca de R$ 1 mil por matéria, a conta não fecha no fim do mês. O fotógrafo muitas vezes se esq.uece que, além das despesas do dia a dia, há gastos com o equipamento, em seguro e investimento”, ensina.

Uma das saídas é tentar acumular diversas pautas e inserir objetivos mais amplos durante uma mesma viagem. O material recolhido nas pautas serve para a imediata publicação, mas também enriquece o banco de imagens do fotógrafo e pode gerar projetos de documentação. Uma cuidadosa preparação prévia é essencial para aproveitar ao máximo cada viagem.

“Eu não tirei da cartola essa proposta de sete livros sobre o Brasil. Ela é fruto de todo um planejamento que eu já vinha fazendo em minha vida profissional. Nos últimos cinco anos, por exemplo, abri mão de todas as viagens internacionais para me concentrar no Brasil. Depois de ter conhecido cerca de 80 países, percebi que já conhecia o mundo o suficiente para poder olhar para a nossa cultura com um bom parâmetro de comparação”, explica Valdemir.

Atualmente, as principais fontes de renda dele são quatro: o trabalho como freelancer, os projetos pessoais bancados por lei de incentivo, a venda de fotos por meio de banco de imagens ( ele é filiado ao Latin Stock, mas também vende por conta própria) e os cursos que ministra sobre fotografia de viagem. Para quem está começando, Valdemir acredita que o panorama do mercado, ainda que não seja dos mais confortáveis, é atualmente muito mais promissor do que na época em que ele iniciou a carreira.

“Hoje em dia você consegue viabilizar um livro digital para divulgar seu trabalho com muito menos recursos do que no passado, quando era preciso imprimir para fazer a fotografia circular. O uso inteligente da internet e das redes sociais permite atingir pessoas com os mesmos interesses e fazer com que um trabalho circule e possa gerar novos projetos“, aposta Valdemir.

Para o próximo número de Técnica&Prática, está programada a segunda aula de Valdemir Cunha sobre o assunto, abordando questões práticas de como organizar uma viagem para obter o máximo de retorno.

 

Matéria publicada na edição 22 de Fotografe Técnica&Prática. Clique aqui para comprar a edição impressa.
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