Fotografia de Casamentos, Gestantes, Books, Aniversários, Festas, Feiras e muito mais…

Reflexões sobre a fotografia documental da National Geographic, por Maurício de Paiva

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Numa tarde de 2002, eu estava dentro de um elevador brilhante. Sozinho. Vinha frustrado do décimo nono andar. Mostrara um portfólio numa famigerada revista da Editora Abril. A porta se abriu e fixou-se amorfa. Estática. Ninguém entrava, ninguém aparecia. Nada. Nada a não ser a placa indicando o andar de NATIONAL GEOGRAPHIC. Foi um sinal profícuo. O tempo alargou-se como aresta. Eu saí numa atitude, pois aproveitei a pasta-portfólio antiga e cheguei à redação desta revista-sonho. Assumi intuitivamente a lentidão do elevador como oportunidade. Não creio ser isso uma coisa folclórica, estereótipo.

ESTRELAS DO MAR foi meu primeiro artigo publicado, em 2004. Fruto de duas jornadas, mar adentro, ao estado do Para – meu vislumbre de reino amazônico atlântico, à época. A partir daí dei–me contiguidade – e muita tenacidade\persistência – na busca por oferecer boas pautas, que sustentassem o histórico de linguagem e nível-base informativo próprio do título. Além de mostrar imagens, digamos, poderosas.

O objetivo desta postagem não é, porém, pormenorizar minha trajetória dentro dos 13 anos da GEOGRAPHIC no contexto benéfico dos seus 125 anos. E sim, trazer à tona uma reflexão sobre o poder eminente da fotografia no meu tempo, idiossincrático tempo. Já uma arqueologia-visual?

Fotógrafos como James Stanfield, Reza, Ira Block, Louis Mazzatenta, Bob Caputo, Sam Abell, Michael Nichols, David Doubilet, Robb Kendrick, Maria Stenzel, Randy Olson, Michael Yamashita, Ami Vitale, Steve McCurry… eu os via, ludibriado, com interesse e vivacidade nas edições de NATIONAL dos anos 1980 e 1990.

Sem atestar que me foram ”referências” ou até mesmo influências: Pablo Corral Vega (marcante matéria sobre o povo dos Andes!), William Albert Allard, David Alan Harvey (suas incursões ao Brasil), Paolo Pellegrin, Robert Clark, Ed Kashi, Jim Richardson, James Nachtwey, este sem ressalvas o maior fotojornalista de guerra. O fotógrafo nascido na Checoslovaquia e nacionalizado francês, Josef Koudelka, desvinculado a revista, mas a mim no topo, uma pérola! Há também o argentino premiado no último POY, Tomás Munita.

Se fechar a  “lista” em apenas três estupefatos e inspiradores fotógrafos em aspectos como composição estética, coerência narrativa, meu gosto pessoal e ARQUEOLOGIA, seria:  Alex Webb, Kennet Garret eTomazs Tomazsewsky – este último fez uma fotorreportagem célebre sobre os ciganos (ver em “Gypsies”), que eu muito punha reparo antes de qualquer freela, creia-se… antes de qualquer saída fotográfica.

Entretanto, o que sempre me fascinou foi a densidade da luz fotográfica para matérias e capas sobreArqueologia. Do Egito à Caverna (arte rupestre) de Chauvet na França, ou o crânio de 4,4 milhões de anos achado na Etiópia, de novos sepultamentos no subterrâneo em Roma aos examesMACROFOTOGRAFICOS do pergaminho de Da Vinci da Mona Lisa, das reflexões sobre os Neandertais aos refluxos sobre a península de Yucátan… das revelações Astecas à Serra da Capivara! Ou ainda, a correlação entre a Idade Média e a Amazônia no ano 1000 d.C. e o estado mumificado – e exames tomográficos por imagem – de uma Imperatriz em São Paulo. Mais diversidade? Sim, acho que o tema arqueológico, a exemplo, ganha mais espaço na publicação no Brasil. Profícuo e bom esse poder.

Essas capas me atraem de modo peculiar e desbravador. Outrora ou agora.

Quando viajo para a revista, por encomenda ou não, uso de algum modo inconsciente essa admiração antiga. Já refleti muito que operar em campo é algo inexplicável. É também apego moribundo. Uma espécie de embriaguez e “cegueira” ao senso de compromisso que nos abate no dia a dia trabalhoso, buscando avante o perfeito, buscando além, construindo estética e alteridade. O sério tempo, ali, vira soberano…

A ensaísta Susan Sontag, no livro “Sobre fotografia” escreve: “Imagens são de fato capazes de usurpar a realidade porque, antes de tudo, uma foto não e apenas uma imagem (como uma pintura é uma imagem), uma interpretação do real, é também um vestígio, algo diretamente decalcado, como uma pegada ou uma máscara mortuária.”

O bom da foto documental em National Geographic, mesmo as singelas ou sombrias reproduções de urnas funerárias… é que, em uma única imagem, pode e se reúne um conteúdo de uma serie de elementos icônicos que dão informações em diferentes áreas do conhecimento. A fotografia como interpretação multidisciplinar.  E ARQUEOLOGIA, sabe-se, é interdisciplinar! Flerta com outras ciências. Prova disso é a etnoarqueologia, a geologia, a física nuclear, a química de solos, a botânica, a antropologia-visual etc. Por isso me interessei, há tempos.

A fotografia muitas vezes surge pelo envolvimento. Isso pode ser uma tradição do documentar? É sensorial e corpóreo. Um congelamento pode ter como reflexo não o fotograma (pixels ou a película!) em si mesmo. A inspiração pode não ser a foto! A autenticidade não está propriamente em construir a foto! Mas em conectá-la com outro interesse. De repente, fazer fotos seria como falar de ler, de leitura. Do ato como causa e efeito interno. Transcendência.

Eu a sinto também como gesto. Algo “entre olhos”. Caminhos difíceis e “incompletude” do fotógrafo a driblar as intenções escondidas nos objetos culturais. Ao fotografar, “caçar” ou encontrar, apropriar ou receber, avanço num gesto outro, contra decifrar a cultura não transparente. Mas reconhecer e engajar.

Segundo o arqueólogo Eduardo Góes Neves, em prefácio de livro de fotografias: “(…) À dimensão estática das imagens… emerge uma tensão que nada mais é que a manifestação da vida a escorrer continuamente, mesmo num instantâneo. A operação passando do registro estático fotográfico à dinâmica da vida, é exatamente a realizada por arqueólogos. O que são sítios arqueológicos senão registros estáticos, no presente, de histórias complexas que ocorreram no passado? As fotos, a sua maneira, produzem uma arqueologia do contexto da arqueologia.”

Pois seria essa magicização assim mesmo! Corroborar, evocar o passado através de um elo através da sua parte própria mais visível, a foto e sua capa! A invisível…

O que penso hoje, no que tange a todas as coisas e a um ambiente de trabalho em particular, não muda muito o que vivo e delito conectar há anos… Nisso:

“Ir à Amazônia é lidar com algo primal: sua arqueologia. Viajando para lá percebo o quinhão da antiguidade da ocupação humana. E como não me sinto confortável na cidade. Quando desejo tecer minhas fantasias e recarregar euforias vou trabalhar para o fundo do meu quintal: Amazônia. Minha atitude na floresta é o olhar passional para os modos de vida; isso me ilumina como expressão do pensamento. A vivência não é só escavar a estética… Minha câmera é um pretexto, compassivo. Lido com o calor, o medo, as relações, a angústia, a responsabilidade em trazer uma reportagem digna… E eu tento evocar isso tudo para uma fotografia.”

Parece que aquele elevador da Abril também eclodiu -me para algum lugar mais intenso do que imaginava… suficientemente exíguo para que toda fuga fosse vã e poucas coisas se imobilizassem. Tudo recomeça como consequência para o olhar…

Ou ainda, penso no que posso prosseguir como ponte. Nesta edição comemorativa do mês, o global Sebastião Salgado vislumbra implicitamente algo que compartilho {arqueologicamente} no ar: “Que fotografem mais nossos grupos indígenas. No inicio da história escrita da humanidade, (…) pessoas já habitavam a floresta Amazônica. Temos a obrigação de conhecer e proteger esse legado cultural e ambiental.”

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Fragmentos arqueológicos cerâmicos em Lago da Valeria, Parintins, AM.

Fragmentos arqueológicos cerâmicos em Lago da Valeria, Parintins, AM.

Inscrição rupestre no Parque Estadual de Monte Alegre, Pará. Esta área fica próxima ao sitio Gruta do Pilão, datado em 11,2 mil anos.

Inscrição rupestre no Parque Estadual de Monte Alegre, Pará. Esta área fica próxima ao sitio Gruta do Pilão, datado em 11,2 mil anos.

Urna funerária MARACA. O estado do Amapá possui ao menos 4 culturas pré-cabralinas e muitos sítios, inclui em cavernas. Em novembro de 2009, a NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL publicou artigo sobre arqueologia: "Stonehenge tropical".

Urna funerária MARACA. O estado do Amapá possui ao menos 4 culturas pré-cabralinas e muitos sítios, inclui em cavernas. Em novembro de 2009, a NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL publicou artigo sobre arqueologia: “Stonehenge tropical”.

Foto do trabalho e fotorreportagem sobre os ciganos, por Tomasz Tomaszewski.

Foto do trabalho e fotorreportagem sobre os ciganos, por Tomasz Tomaszewski.

Contundente edição histórica especial de NATIONAL GEOGRAPHIC [Emerging Mexico], de 1996. Com ensaios dos fotógrafos Alex Webb, David Alan Harvey, Stuart Franklin e o fenomenal Tomasz Tomaszewski, que assina Ÿacatán Peninsula e Chiapas.

Contundente edição histórica especial de NATIONAL GEOGRAPHIC [Emerging Mexico], de 1996. Com ensaios dos fotógrafos Alex Webb, David Alan Harvey, Stuart Franklin e o fenomenal Tomasz Tomaszewski, que assina Ÿacatán Peninsula e Chiapas.

 

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