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A beleza no porto

Prédio de 1922 representou a riqueza do município - Divulgação
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Prédio de 1922 representou a riqueza do município

 

Santos não é um livro para turistas. Vale dizer, não é uma declaração ufanista, mas um balanço amoroso e crítico de um fotógrafo que começou sua carreira registrando a imagem de despossuídos e marginalizados. Por isso mesmo, a região privilegiada pelas lentes do fotógrafo não é a orla da praia, mas o centro da cidade, dominado pela atmosfera melancólica do porto – e nunca é demais lembrar, como evoca Araquém, que a cidade começou a nascer no cais do Valongo, onde um vapor britânico marcou a primeira operação intercontinental, em 1892.

A primeira exposição individual do fotógrafo usava a imagem de urubus de uma maneira um tanto alegórica, aproximando os abutres dos seres segregados de forma escancarada pela sociedade. Em 1973, sufocada pela ditadura, a santista, que havia sido no passado uma sociedade culta e politizada, tentava se vingar da truculência do regime humilhando os proscritos. “Sempre tive esse lado de produzir material combativo, mostrando esse tipo de horror”, atesta o fotógrafo que, no livro, troca a imagem de alegres turistas circulando pelos jardins da praia pelo trabalho escravo de estivadores que, nos anos 1970, disputavam para carregar sacas de café nas costas.

Há, é claro, a imagem do passado monumental de uma cidade que não era só o mítico porto de marinheiros tatuados e prostitutas, mas uma celebração da riqueza burguesa, traduzida nos prédios do centro. “Cheguei na cidade com seis anos e fiquei impressionado com o tamanho dos navios que aportavam em Santos, além da beleza dos edifícios da rua do Comércio, hoje em ruínas”. Felizmente, ela começa a dar sinais de revitalização, como mostra uma foto feita este ano na Casa da Frontaria Azulejada, construída em 1865 e finalmente restaurada.

Para o livro da Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira, que terá 10 volumes (dedicados a profissionais como Cristiano Mascaro e Nair Benedicto), o curador Eder Chiodetto selecionou fotos do começo da carreira de Alcântara, em Santos, mas ampliou a panorâmica desse fotógrafo peregrino que já fotografou o Brasil inteiro, inclusive as regiões mais remotas.

Coincidentemente, no livro, estão registros da tribo dos Zo’és feitos por Araquém em 2005 no rio Cuminapanema, os mesmo índios fotografados por Rogério Assis no livro Zo’é (leia texto abaixo) em 1989 e vinte anos depois. Além dos Zo’és, Araquém mostra no pequeno grande livro da Ipsis o retrato do genocídio indígena no Brasil, sintetizado numa imagem dramáticas de crianças ingaricós vestidas com trapos.

“Santos”

Livro de fotos de Araquém Alcântara.

Editora: Terrabrasil (170 págs., R$ 79).

Lançamento: 5/12, na Casa da Frontaria Azulejada (R. do Comércio, 96, Centro de Santos).

 

Fonte: http://www.estadao.com.br

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