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Gloriosa e triste história da nossa fotografia

Por Robinson Damasceno

Reproduzido d’O TREM Itabirano nº 100, dezembro/2013

 

A arte da fotografia encontrou no Brasil o amparo pioneiro de dom Pedro II, que ainda em 1840, um ano depois da histórica descoberta do “fazer” fotográfico em Paris, já importava sua câmera e, em seguida, dava guarida aos pioneiros fotógrafos, tanto os europeus quanto os brasileiros, que produziram muito ao longo daqueles últimos anos do século XIX.

Assim, o Brasil, aquele estranho e distante país tropical, povoado por escravos e miseráveis, dava sequência aos trabalhos pioneiros de Niépce e Daguerre na França, sempre pioneira no avanço científico, antes que os Estados Unidos tomassem conta da situação com seu poder econômico e político.

Na América do Norte, por exemplo, o fotojornalismo cresceu exponencialmente com a Guerra da Secessão, com fotógrafos de ambos os lados registrando as batalhas de forma crua e emocional. O povo, que não fazia ideia de como era uma guerra de verdade, se abalava com a realidade que saltava aos olhos. Até hoje as fotos das batalhas de Gettysburg e outras são de impressionar a qualquer um pelo realismo que as obras de arte napoleônica até então camuflavam.

Como resultado, os americanos transformaram aquele inferno em indústria produtiva, como sempre fizeram. E surgiram potências como a Kodak e suas câmeras populares, de fácil manuseio e que custavam menos de dez dólares.

Ocorre que o incentivo à fotografia aqui vinha diretamente do monarca amado pelo povo. E isso fez toda a diferença. A fotografia proliferou em todo o Brasil, mesmo em seus rincões mais distantes, nos sertões e na selva, compondo de alguma maneira um mosaico muito rico do país e de seu povo.

Essa febre fotográfica, no entanto, não veio acompanhada do desenvolvimento de uma indústria. Como sempre, fomos bons importadores, mas péssimos produtores e industriais. Além do mais, era muito mais simples e barato importar os equipamentos americanos, muito em conta, em vez de produzir máquinas em solo nacional, com suas dificuldades burocráticas, taxas e impostos. Essa realidade em nada mudou, infelizmente.

Uma exceção notável foi a do francês, naturalizado brasileiro, Hércules Florence, considerado unanimemente um dos inventores da fotografia, entre outras notáveis invenções e descobertas. Florence era um híbrido: fez a transição entre a ilustração e a pintura para a fotografia, tendo deixado trabalhos formidáveis em todos esses campos.

Florence cumpria todas as etapas da fotografia, desde a manufatura de câmeras e laboratórios até a revelação do material e sua venda ao grande público – demanda que, aliás, não era tão grande assim.

Pode-se dizer que havia poucos, pouquíssimos, fotógrafos profissionais engajados na imprensa que, refratária, persistiu no uso do bico de pena e no croquis. Os jornais eram muitos, mas não possuíam expertise para assimilar a nova técnica. Nada de mais e nem tão ruim assim. Tivemos ilustradores brilhantes em nossa imprensa, como Ângelo Agostini, gênio do traço.

De qualquer maneira, nossos principais acontecimentos do final do século XIX, como a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravidão e o próprio fim do Império, ficaram sem maiores registros fotográficos.

Mas com o advento da República houve como que uma espécie de explosão da fotografia jornalística. A Guerra de Canudos, por exemplo, registrada por Flávio de Barros, foi um marco na história do desenvolvimento da fotografia – e do fotojornalismo, por extensão.

A história do desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro e de São Paulo já teve uma ampla cobertura fotográfica. No Rio, fotógrafos como Marc Ferrez e Augusto Malta mostraram ao país e ao mundo as belezas e misérias de uma capital que crescia para todos os lados, mas que enfrentava doenças terríveis e uma miséria africana.

Já em São Paulo, prenunciando a vocação cosmopolita da cidade e sua ânsia de crescimento e progresso, a fotografia mostra uma cidade em expansão, culta e refinada, com elegância e aprumo.

São duas visões complementares e que se somam na história brasileira de forma insubstituível. Interessante é notar que, à época, a fotografia era considerada uma arte menor, já que apenas retratava o que era visível. A fotografia não é expressionista nem impressionista: ela é o que é. E por isso é tão importante para nós.

Os lambe-lambes

De forma completamente precária e com muito improviso, o Brasil veio sendo registrado por meio de seus fotógrafos ambulantes. E a sua chegada às pequenas cidades era uma ocasião de festa. Moças e senhoras se preparavam para “tirar retratos”, os homens tiravam a poeira dos paletós e passavam gomalina nos cabelos e até as crianças se aprontavam com aprumo para a ocasião.

Esses fotógrafos, com suas câmeras imensas, seus panos pretos sobre a cabeça, traziam também novidades da cidade. Eram, como se dizia, “novidadeiros”. Muitos causaram confusão com as moçoilas casadoiras que se engraçavam para o lado daqueles moços sem o menor futuro.

Mas à parte do folclore amoroso, esses profissionais tiveram papel relevante na cobertura da história. Registraram, por exemplo, além de Canudos, o Cangaço e seus anti-heróis, como Lampião e Maria Bonita, e seus implacáveis perseguidores, “as volantes”.

Porém, pelo Brasil afora, tivemos outro tipo de fotógrafo, que podemos chamar de fotógrafos do matto-dentro. Eram diletantes, pessoas da sociedade e que exerciam outras ocupações em suas cidades, mas que em ocasiões especiais assumiam a personalidade de fotógrafos e registravam o dia a dia de concidadãos, do nascimento até a morte.

Dentre tantos, para nós, itabiranos, podemos pinçar, com orgulho, a figura de Brás Martins da Costa, que ao longo de mais de 40 anos se dedicou a registrar em pormenores a vida de sua (nossa) cidade.

Sempre munido de sua fiel Premo 3, máquina popular da Kodak, e emulsões com que banhava os filmes em vidro produzidos pelos Irmãos Lumière, Brás subia e descia ladeiras, registrando sempre o que de fato importava em sua pequena Itabira.

Esse acervo, herança única que ele legou aos itabiranos, é hoje um dos mais valiosos, no sentido sentimental e histórico, existentes no Brasil. São cerca de 300 negativos em vidro, em bom estado de conservação e que passeiam por mais de quarenta anos de história no matto-dentro ou no mato-fundo, como queria Carlos Drummond de Andrade, ele próprio fascinado com o trabalho de Brás.

Entretanto, é evidente que Brás não está sozinho no panorama dos historiadores do momento, que é como podemos definir aqueles abnegados profissionais dos primórdios da fotografia. Junto a ele, há dezenas espalhados pelo Brasil.

Ocorre que uns 90% do acervo que produziram foram perdidos irremediavelmente. Muitos daqueles frágeis negativos em vidro foram simplesmente descartados como lixo ou se quebraram e desapareceram para sempre. Pesquisar a memória é conviver com a perda.

Dessa maneira, cidades mineiras como Diamantina e Ouro Preto podem se considerar privilegiadas por terem ainda acervos fotográficos importantes e preservados.

De fato, Itabira possui um dos maiores e mais bem-cuidados acervos do Brasil, talvez do mundo. Um trabalho exaustivo e prenhe de dificuldades, mas que resultou em um ganho memorialístico extraordinário.

Resta descobrir o melhor caminho para que esse acervo monumental percorra sua trajetória. Esses caminhos se delineiam, mas é como se fossem daguerreótipos em banho de prata. Com calma e sem solavancos.

***

Robinson Damasceno é jornalista, publicitário e escritor

 

Fonte: http://observatoriodaimprensa.com.br

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