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O significado da ‘Foto do Ano’

Por Fred Ritchin

 

“Através das fotografias, o mundo torna-se uma série de partículas não relacionadas, independentes; e a história – o passado e o presente – passa a ser um conjunto de textos curtos e inusitados”, escreveu Susan Sontag em 1977. “A câmera torna a realidade mínima, administrável e opaca. É uma visão do mundo que nega a interconectividade, a continuidade, mas confere a cada momento o caráter de um mistério.”

A reação de Susan Sontag à fotografia há quase quarenta anos foi semelhante à minha própria reação à foto serenamente ambígua que ganhou este ano o prêmio World Press Photo – exceto que, neste último caso, a fotografia é aparentemente sobre o desejo de se conectar de um grupo de homens cuja silhueta se vê sob um céu enluarado: “Migrantes africanos na praia de Djibuti, à noite, levantando seus celulares numa tentativa de captar um sinal barato da vizinha Somália – um frágil vínculo com parentes no exterior”.

Num mundo cada vez mais fragmentado onde o empreendimento jornalístico perdeu grande parte de seu caráter comunitário – fotógrafos profissionais têm cada vez menos lugares que apoiem este tipo de trabalho, os leitores se recusam a pagar para ver as imagens (caso consigam sequer encontrar o trabalho entre os bilhões de fotografias tão rapidamente divulgadas pela internet) e os anunciantes se recusam a apoiar as publicações que poderiam patrocinar seu trabalho – a fotografia escolhida para representar 2013 – um ano extraordinariamente turbulento e doloroso – é uma imagem tranquila, abstrata, cerimonial e quase-religiosa que remete às dificuldades da comunicação; dificuldades atualmente partilhadas pela comunidade fotojornalística.

Ao invés de separar uma fotografia do decurso do ano passado que poderia ter impacto na opinião pública ou nos governos – uma tarefa muitas vezes solitária e perigosa do repórter fotográfico como consciência social –, foi escolhida uma imagem simbólica representando os problemas e necessidades da comunicação à distância. E o veículo representado na fotografia vencedora do prêmio – o telefone celular – não por acaso é a principal ferramenta das redes sociais geradas por usuários (para texto, vídeo e fotografia) que evitam os veículos jornalísticos tradicionais. Na descrição feita pela fotografia das quatro telinhas iluminadas levantadas em direção ao céu noturno, percebe-se não só a ascendência do telefone celular e o que ele representa na sociedade, mas também a angústia da imprensa mais tradicional em relação a seu próprio futuro.

O trabalho de Stanmeyer sobre o Sudão do Sul

John Stanmeyer, o autor da imagem premiada (publicada na National Geographic), também assumiu recentemente outro projeto documentando a deterioração das condições de saúde entre refugiados do Sudão do Sul. Stanmeyer começou por divulgar seu trabalho nas redes sociais, via Twitter, Facebook e Instagram, chegando a ser visto por várias centenas de milhares de visitantes, e teve que esperar por uma publicação tradicional para apresentar as fotografias (embora tenha pegado carona em várias redes, inclusive o feed do Instagram da National Geographic). Essa é uma boa notícia para os leitores que queiram acompanhar, de maneira mais oportuna, íntima e direta, o que acontece no resto do mundo, inclusive situações em que as pessoas se encontram numa angústia urgente.

A mensagem por trás da seleção da fotografia do prêmio World Press Photo deste ano pode ser vista como uma concordância sobre o papel crucial das redes sociais, ao mesmo tempo em que evoca a situação de muitos milhões de outras pessoas que, embora não sendo migrantes africanos, vivem boa parte de seus dias procurando um sinal e a conectividade que ele promete – migrantes da mídia que se afastaram do universo físico mais próximo em que já viveram. Mas com seus temas de desconexão e redenção da conexão, a fotografia também é nostálgica, não só para a dor aflitiva da comunidade, mas também para o papel das fotografias jornalísticas como parte da colagem social. Embora a seleção do júri não revele a situação específica dos migrantes africanos em Djibuti, ela aponta para uma angústia maior sobre a conectividade e as situações de fragilidade não só dos milhões de indivíduos refugiados e longe de seus países, mas também o deslocamento dos repórteres fotográficos contemporâneos.

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Fred Ritchin é professor na Universidade de Nova York e codiretor do programa Fotografia e Direitos Humanos na Escola de Belas Artes Tisch

 

Fonte: http://observatoriodaimprensa.com.br

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