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Os fotógrafos da revolução. E as armas do olhar

“Conheci Che depois de três dias caminhando. Quando chegou minha vez de me apresentar, perguntou onde estava minha arma. Eu disse que não possuía uma. Nisso, ele vê a minha câmera junto ao corpo…”

por Clarissa Pont e Eduardo Seidl (fotos)

 

EDUARDO SEIDL/RBA
Perfecto Romero

Perfecto Romero mostra equipamento utilizado nos primeiros anos de carreira como fotógrafo militar

Havana – A icônica figura de Che Guevara que hoje em dia estampa até biquínis foi retirada de uma fotografia de Alberto Korda – possivelmente o mais conhecido fotógrafo da Revolução Cubana. Korda morreu em 2001 em Paris e foi fotógrafo por anos do diário cubano Revolución, além de ter acompanhado Fidel Castro em inúmeras viagens e de ser membro fundador do Departamento de Fotografia da União de Escritores e Artistas de Cuba (Uneac). Antes de se mudar definitivamente para a França, foi diretor da revista fotográfica Opina.

A cena imortalizada por Korda foi tomada no dia 5 de março de 1960, para o Revolución. Ao lado de várias autoridades cubanas, numa tribuna, Guevara participava de um memorial às vítimas da explosão de La Coubre, que matara 136 pessoas. Enquanto Fidel Castro discursava, Korda percebeu Che parado atrás do palanque e clicou duas fotos do revolucionário argentino, uma na horizontal e outra na vertical.

EDUARDO SEIDL/RBAErnesto Hernández
Fernández e a fotografia que abriu portas no fotojornalismo: José Marti com os olhos "cegados"

A fotografia só foi publicada internacionalmente sete anos depois. Em 1967, enquanto Che combatia na Bolívia, o editor italiano Gianfranco Feltrinelli contatou Korda em busca de retratos e recebeu duas cópias da fotografia, que foram editadas e espalhadas em cartazes poucos meses depois, em outubro, quando as autoridades bolivianas anunciaram a morte do combatente. Um ano mais tarde, em 1968, o artista irlandês Jim Fitzpatrick usou a mesma foto para criar uma imagem em alto contraste e a registrou em domínio público. O desenho se tornaria, a partir de então, uma das imagens mais reproduzidas do mundo.

Tão importantes quanto Korda e vivendo ainda hoje em Havana, estão outros dois fotógrafos da Revolução: Perfecto Romero e Ernesto Fernández – cada um deles nos recebeu em casa durante horas de conversa sobre fotografia.

Fernandez.jpg

Em um prédio de apartamentos de Miramar, em Havana, vive com a esposa Perfecto Romero. Quase tímido, mas com gigantescas histórias para contar, Perfecto – como assina suas fotos – oferece um café e pergunta se não é para ver algumas fotografias que estamos ali. Sim, sem dúvida. A partir de então, dezenas de copias do autor são espalhadas na mesa da sala de jantar.

Che Guevara em diversos momentos: em Santa Clara, com sua família, fumando charutos ou com os cabelos descoloridos disfarçado de um senhor espanhol para entrar na Bolívia. Seguem registros de entrevistas coletivas de imprensa que reúnem Camilo Cienfuegos, Che Guevara, Fidel Castro e Raúl Castro, os fotógrafos da revistaVerde Olivo e a primeira visita de Salvador Allende a Cuba. Acompanhar os registros de Perfecto é uma grande aula sobre a Revolução Cubana.

Perfecto nasceu em Cabaiguán em 1936 e ingressou na luta guerrilheira contra a ditadura de Fulgencio Batista encorajado pelo próprio Che Guevara. Foi ele quem intimou Romero a participar da Revolução carregando uma câmera em vez de um rifle. “Ele era preocupado com a questão publicitária, em garantir que documentassem a Revolução e a mostrassem para o mundo”, relembra Perfecto. Depois da Revolução, virou o editor-chefe da revista militar Verde Olivo.

“Conheci-o depois de três dias caminhando, já era como cinco da tarde e estava o Che sentado num banquinho e foi nos recebendo um a um. Quando chegou a minha vez me perguntou onde estava a minha arma e eu lhe disse que não possuía uma. Nisso, ele olha e vê a minha câmera junto ao corpo e começa a me contar de sua época de fotógrafo no México. Ele queria começar um periódico de dentro da Sierra Maestra, e já estava em tratativas para trazer uma impressora para dentro de um dos acampamentos”, conta o fotógrafo.

A Revolução atraiu a atenção de praticamente todos os fotógrafos cubanos. Para reforçar esse compromisso, uma das primeiras iniciativas do novo governo foi criar o jornal Revolución, veículo oficial responsável pela comunicação direta do novo governo com a população. O Revolución trabalhava intensamente a imagem, contando com um encarte de quatro páginas – publicado três vezes por semana – dedicado somente às fotos oficiais. Entre os fotógrafos do jornal também estavam Liborio Noval e Raúl Corrales.

EDUARDO SEIDL/RBA/REPRODUÇÕESChes
Dois Ches: na colheita de cana (cédula de 3 pesos) por Fernández. E rumo a Bolívia, disfarçado de ancião, por Perfecto

Ernesto Fernández também reside ainda hoje em Havana. Trabalhava como ilustrador da revista Carteles e já havia realizado um ensaio fotográfico muito interessante antes de 1959: La Habana en Inglês, em que documenta anúncios de negócios cubanos, dos quais 90% estavam em inglês. Sua foto mais conhecida é de 1957. Ele tinha 16 anos quando registrou a cabeça do monumento a José Martí apoiada por colunas de madeira durante a construção do memorial que hoje está na Praça da Revolução, em frente às imagens em ferro de Camilo e Che nos prédios ministeriais. “A fotografia tem uma carga forte de interpretações justamente porque vivíamos uma ditadura enquanto ela foi feita e lá estava Martí cegado por aqueles paus”, conta. Depois de 1959, passou a trabalhar para o Revolución. É dele a fotografia que ilustra o verso da nota de 3 pesos cubanos onde está Che Guevara cortando cana em uma ação de trabalho voluntário.

Fernández mantém uma interessante página no Facebook onde compartilha momentos do jornalismo cubano e grandes reportagens. Preocupado com a carga de registro histórico contida em cada uma de suas fotos, Fernández prepara um grande livro com toda sua trajetória a ser lançado em breve. “O problema em Cuba é conseguir editar um livro de fotografia, porque as impressões aqui não têm qualidade”, explica. Ele e o filho, também fotógrafo, hoje mantêm em casa e em um estúdio uma pequena gráfica de impressões fotográficas. Perfecto está aposentado e se dedica a colaborar com o semanário de humor Palante – jornal bastante conhecido em Havana.

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